Poesias de 1 a 99

Poema #03: Oferenda

Da onda ao pé da praia,
recolho as relíquias do mar:
sigilo
deslumbrante encanto
pronúncia sincera de uma fé sem dogmas.

Preservo meus amuletos.
Quisera crer somente na força
das águas que os trouxeram,
banhados em luz e sal,
sutil religação do corpo ao mistério.

Algo estranho, porém, corta
minhas mãos, meus pés.
Fio afiado de faca
cravado nas costas da mansidão.
Em vão vasculho a areia:
misericórdia amor tolerância
estão enterrados tão fundo
que sequer a mais teimosa esperança
pode trazê-los à tona.

Os detritos e os dejetos
de uma deturpada devoção
soterram sem piedade
o que um dia foi oferenda.

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Felipe Duarte de Paula

Felipe Duarte de Paula nasceu em 1987. Formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, é promotor de justiça, com atuação no enfrentamento à violência doméstica contra a mulher. Mora com a família em São Paulo. Publicou os livros de poemas Vida selvagem (2024) e Nós no céu (2026), ambos pela editora Patuá. Além disso, participou das obras coletivas Ministério Público e Literatura (MP/PA-CEAF, 2023) e Antologia de poesia latino-americana contemporânea (editora Peabiru, 2025). Tem poemas publicados em periódicos e sites como Revista Athena, Ruído Manifesto, Mirada Janela Cultural, Revista Mosaico Cultural II, Portal Crônicas Cariocas, Amaité poesia & cia, e Revista LiteraLivre.

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